Entre maio e julho passados, foi levada a cabo uma nova campanha de trabalhos arqueológicos em Vouzela, no âmbito de protocolos firmados entre o município e a Universidade Nova de Lisboa. Os trabalhos, sob a responsabilidade científica de Fabián Cuesta Gómez, João Luís Veloso e Catarina Tente, foram motivados pela necessidade de realizar sondagens de controlo prévias à empreitada de reconstrução da muralha localizada no Monte de Nossa Senhora do Castelo. Tal como o topónimo sugere, essa elevação, hoje ocupada por uma capela dedicada a Nossa Senhora da Esperança, terá durante a Idade Média sido o local de implantação do «castrum Alahoueines», o castelo cabeça-de-terra de Lafões, mencionado na documentação desde 1019.

Desativada em algum momento da Baixa Idade Média, a fortificação já se encontraria em ruínas no século XVI, sobre as quais, então, foi edificada a primitiva capela. O templo hoje observável, implantado sobre uma imponente plataforma artificial, resulta de um esforço de ampliação do século XIX. Em 2019, parte da face norte deste muro de sustentação ruiu, colocando a descoberto estruturas e materiais medievais.

O Monte da Senhora do Castelo tem grande importância patrimonial, pela concentração de vestígios nas suas encostas: duas sepulturas escavadas na rocha perto do cume e, em prospeção, cerâmica da Idade do Bronze — um indício reforçado pela proximidade do castro de Baiões/Santa Luzia, em São Pedro do Sul. Por isso, paralelamente à limpeza do derrube, fizeram-se sondagens na encosta norte, com alunos de Arqueologia da NOVA-FCSH, que escavaram três das cerca de dez estruturas pétreas identificadas.

A área escavada foi interpretada como um espaço residencial e de trabalho de cronologia pleno-medieval, provavelmente afeto ao castelo. Duas das estruturas aparentam ser habitações, do interior das quais se obteve bastante espólio cerâmico. A terceira estrutura foi interpretada como industrial, hipoteticamente relacionada com a exploração de minério. Ainda que o estudo do povoado esteja, à data, numa fase preliminar, não deixa de ser promissor. De um ponto de vista arqueológico, as áreas produtivas associadas a castelos não são sobejamente conhecidos, pelo que se inaugura aqui um vetor de investigação estimulante.