No início da semana passada, em comunicado oficial, a Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema informou da recuperação fortuita do filme português “A Lenda de Miragaia” (Raul Faria da Fonseca  & António Cunhal, 1931), considerado perdido até à data.

Trata-se de uma excelente notícia, não só porque qualquer oportunidade de recuperação, salvaguarda e proteção do património é sempre recebida com alegria, mas também devido a que se trata de um dos primeiros filmes de animação em Portugal, tendo sido realizado com base na técnica de animação de silhueta. Além disso, esta peça cinematográfica integra um importante acervo de filmes, produzidos em Portugal, que representam a Idade Média. O filme narra a “Lenda de Miragaia”, também conhecida como “Lenda de Gaia” ou “Lenda de Ramiro”, e na qual se descrevem as vicissitudes do monarca Ramiro II de Leão (898 –951) no território correspondente ao norte do atual Portugal, durante o século X. Trata-se de uma das narrativas mais importantes do Romanceiro Português que, ainda no século XIX, foi imortalizada no famoso poema narrativo de Almeida Garrett, que o publicou inicialmente em 1843, no Jornal de Bellas-artes.

A produção deste filme que, nos inícios da década dos anos 30, se debruça sobre o passado medieval lendário, pode analisar-se em conjunto com outros filmes como “Rainha depois de Morta” (Carlos Santos, 1910) ou “A dança dos paroxismos” (Jorge Brum do Canto, 1930), que demonstram o interesse que suscitou esta temática no seio da cinematografia lusa desde os seus primórdios. De facto, a investigação sobre a representação da Idade Média no cinema é uma linha de pesquisa desenvolvida por um grupo de investigação interdisciplinar liderado por Alicia Miguélez (IEM), e no qual participam outras/os investigadores do IELT, IFILNOVA e IHC da NOVA FCSH; do CH da FLUL; e de outras instituições académicas internacionais. Nos últimos anos, este grupo organizou a mostra de cinema sob o título Luz e Sombra. A representação da Idade Média no cinema, numa primeira edição em Lisboa em colaboração com a Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema (2022), e numa segunda edição em Madrid em colaboração com a Filmoteca Española e o Círculo de Bellas Artes (2023-24). Também publicou o livro La Edad Media proyectada. El pasado medieval ibérico en la creación audiovisual en lenguas portuguesa y española, ed. Alicia Miguélez, Erika Loic, Felipe Brandi, Madrid: Iberoamericana Vervuert (2025). Este foi precisamente lançado, no passado sábado dia 30 de Maio, num evento na Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, organizado em parceria com a Livraria Linha de Sombra, onde o livro se encontra à venda.

A notícia da recuperação do filme “A Lenda de Miragaia” é, por isso, recebida com alegria e motivação para continuar a produzir novo conhecimento sobre a recepção e os usos da Idade Média na época contemporânea e divulgar esse conhecimento ao conjunto da sociedade.