Género, negociação, colaboração e autonomia na configuração da prática litúrgica nos conventos femininos mendicantes: entre textos, espaços e imagens

Resumo

A crença numa existência passiva das comunidades de mulheres que integravam o ramo feminino das ordens religiosas, aliada à ideia da inexistência de fontes capazes de documentar a sua vida e prática religiosa, levou a que, durante muito tempo, a historiografia não considerasse a vida conventual feminina medieval um objeto de estudo relevante para a compreensão quer da história do monasticismo, quer da história das mulheres neste período.

A redescoberta da importância do estudo da vida conventual feminina medieval para a compreensão do papel da mulher pré-moderna, no contexto do desenvolvimento dos estudos feministas e dos estudos sobre as mulheres nas últimas décadas do século XX, veio trazer à luz inúmeras fontes, anteriormente desconsideradas ou desconhecidas, que evidenciam o papel fundamental das mulheres religiosas na sociedade e na cultura medievais. Esse papel traduz-se numa grande pluralidade de formas de vida, práticas culturais e religiosas e graus de autonomia.

O estudo das comunidades regradas que deviam obediência a uma ordem religiosa dotada de normativas estritas é particularmente relevante para a compreensão da configuração da vida conventual feminina medieval. O grau de adesão destas comunidades às normas gerais das ordens constitui ainda uma questão em aberto que apenas nos últimos anos, graças à recuperação e à descoberta de elementos de cultura material provenientes destes contextos, tem vindo a ser progressivamente esclarecida, revelando uma pluralidade de cenários resultantes da interação complexa de diversos fatores, e trazendo à tona novos significados e funções para os elementos de cultura material deixados por estas comunidades.

Sobre a Oradora

Paula Cardoso é doutora em História da Arte pela Universidade Nova de Lisboa (2019). A sua tese de doutoramento centrou-se na produção, patrocínio e uso de livros litúrgicos iluminados nos conventos Dominicanos femininos Portugueses no contexto da reforma Observante. A sua investigação revelou novas informações acerca do papel das freiras Dominicanas no governo temporal e espiritual das suas comunidades, bem como sobre o seu nível de literacia e as conexões entre a arte monástica e a memória comunitária.

Publicou artigos com revisão por pares no Journal of Medieval HistoryJournal of Medieval Iberian StudiesMélanges de la Casa de Velázquez e no jornal Pecia. Le livre et l’écrit (Brepols). Foi investigadora pós-doutoral Marie Skłodowska-Curie (MSCA) na Universidade Pompeu Fabra – Barcelona (2021-2023) e está neste momento a trabalhar no Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova de Lisboa onde recebeu um contrato de investigação ao abrigo do programa Estímulo ao Emprego Científico (CEEC) da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). A sua investigação atual foca-se nas inter-relações entre a cultura textual e visual, a identidade comunitária e a liturgia das comunidades mendicantes femininas Portuguesas entre o final da Idade Média e o início da Idade Moderna.